Quintalhaça – Entrevistalhaça

Fábio Ribas fala sobre o conceito e a evolução do trabalho voluntário no Brasil. A entrevista foi concedida na ocasião do lançamento do livro “Mulheres Voluntárias: Experiências Empreendedoras no Terceiro Setor”, publicado pela Editora Prêmio.

 

RVC: Como você vê a participação da mulher no trabalho voluntário? 
Fábio Ribas: Trata-se de uma participação decisiva, tanto no aspecto quantitativo como no aspecto qualitativo. Percebo no pensamento e no modo de ser de muitas mulheres uma capacidade de integração de aspectos decisivos para o equilíbrio e o desenvolvimento das comunidades, os quais normalmente estão cindidos no mundo masculino. Isto não significa ver o mundo sob o prisma do sexo, como em certas formas de feminismo, mas de reconhecer a capacidade da mulher para superar dualidades e antagonismos que sempre nos enredaram, tais como a oposição entre o crescimento econômico e a justiça social, entre a busca do sucesso pessoal e a defesa do interesse coletivo, entre o poder para decidir e a sensibilidade para acolher etc. Uma das entrevistadas do livro “Mulheres Voluntárias – Experiências Empreendedoras no Terceiro Setor”, Renata Camargo Nascimento, define o que estou tentando dizer. Ela diz que a mulher coloca toda a essência de si mesma no trabalho. Aceita desafios, tem uma visão mais ampla do ser humano, é mais flexível. Consegue ter uma visão global e ser, ao mesmo tempo, extremamente objetiva e humana. Consegue unir duas coisas que normalmente estão separadas: a racionalidade para a definição objetiva de metas e a sensibilidade em relação às pessoas e à comunidade. 

RVC: Em relação às décadas passadas o conceito de trabalho voluntário sofreu algumas mudanças. Quais seriam? 
Fábio Ribas: Antigamente, fazer um trabalho voluntário significava, na maioria das vezes, um exercício de caridade motivado por compaixão, religião ou até mesmo por interesses de promoção pessoal ou de controle social. O voluntariado não conseguia se desligar da tradição filantrópica assistencialista e paternalista que, por séculos, marcou a formação da cultura brasileira. Nas últimas décadas, uma série de transformações mundiais e locais começou a mudar esse panorama. Essas transformações envolvem fenômenos como a mudança do papel dos Estados Nacionais (que cada vez menos conseguem garantir o bem-estar social), a crise dos partidos políticos (que perdem legitimidade perante a população como mecanismos eficazes para a promoção de mudanças sociais), o fortalecimento gradual das organizações da sociedade civil (que, no Brasil, vem acontecendo desde o período do regime militar com o advento das ONGs), o acirramento mais recente de problemas sociais (desemprego, violência etc.) que passam a afetar diretamente não apenas os grupos de baixa renda, mas também os segmentos de renda média e alta, além de outros. Nesse contexto, o terceiro setor começa a se apresentar para os cidadãos como um espaço para uma participação mais concreta na vida da comunidade. As pessoas começam a perceber que, pelo voluntariado, podem não apenas ajudar a construir uma sociedade mais equilibrada, mas também encontrar uma alternativa ao modelo individualista de existência (cuja incapacidade para favorecer a plena realização das potencialidades humanas fica, em tempos como os atuais, bastante evidenciada). Essa conjunção de fatores está desencadeando uma transformação conceitual do trabalho voluntário, ou até mesmo algo mais que o nascimento de um novo conceito: pode estar prenunciando uma transformação na cultura de participação e na autoconsciência das pessoas enquanto cidadãs. Hoje, dizemos que está havendo uma convergência entre os conceitos de voluntariado e cidadania, cuja faceta mais interessante seria o engajamento ativo das pessoas em trabalhos voluntários que, em sua melhor expressão, têm por objetivo promover a reintegração social dos excluídos, garantir direitos como educação, saúde etc. às pessoas deles alijadas, e assim por diante. A novidade é que essa forma de voluntariado faz contraponto à simples defesa de interesses particularistas e vai muito além do exercício da velha filantropia: representa um engajamento na garantia de direitos para os outros. Seria o embrião de uma cidadania ativa, em que as pessoas não se preocupam apenas com seus direitos a receber, mas expressam a vontade ética de fomentar direitos que alcancem a todos. Estaria aí a diferença entre uma cidadania passiva e descompromissada, e uma cidadania ativa e responsável. É preciso, porém, ter em mente que este é um processo em construção, cuja consolidação não é algo certo ou automático. Tendências contrárias a esta, que desde sempre estiveram presentes na história da sociedade brasileira, continuam a reproduzir relações de centralização, autoritarismo, clientelismo e alienação. Diante disto, o crescimento atual do voluntariado como prática de cidadania só se afirmará de fato se conseguir fortalecer a cultura cívica do país e, por extensão, a nossa democracia. 

entrevista completa: http://prattein.publier.com.br/texto.asp?id=39

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