Quintalhaça – Entrevistalhaça

Buscando aqui na internet coisas interessantes no mundo de palhaço me deparei com um blog que o autor chama-se Cazzo que entrevistou um palhaço chamado Amoroso, confira aqui a entrevista que peguei desse blog no fim se quiser conferir entrevistas interessantes entre no blog.!!!

A entrevista é grande para um blog, mas vale a pena ler…

CAZZO ENTREVISTA PALHAÇO AMOROSO

 

Palhaço Amoroso nunca pisou num picadeiro, e faz do riso prato cheio no dia a dia da sinaleira do Vale dos Barris, quando encara, a priori, rostos robustos, enfezados, trêmulos, nervosos ao volante que, aos poucos, e poucos, se abrem diante da performance deste doce e despretensioso lavador de pára-brisas.
Ex-auxiliar de escritório, ex-empresário, ex-monge Hare Krhisna, ex-mímico na Índia. Palhaço Amoroso, autodidata, não vê TV, não acredita na melancolia que tantos se referem aos palhaços, prefere mesmo estar alegre o tempo todo, assim como a leve e desobjetiva alegria das crianças, que fazem graça pelo simples fato de serem crianças.

Porque despreza a idéia, preza pelo vazio da alma; e seus minúsculos olhos – quase encobertos pelo gigantesco nariz no meio da cara –, vêem neste vazio da alma todo o preenchimento da necessária sensibilidade pra se levar a vida.

Se na sinaleira, ao fim da performance, no lugar da moeda, lhe dão um sorriso, Amoroso, alma aberta e lavada, não ignora, toma pra si, como quem guarda um tesouro. 

 

Amoroso:Essa coisa de palhaço mesmo eu comecei foi na Índia, eu já era ator, não teria como me comunicar em português, acabei trabalhando como mímico lá. Aqui é que comecei a me caracterizar mesmo como palhaço, fui descobrindo a lidar com público, na rua, não aquele público preparado, já sentado esperando o espetáculo, era coisa de esperar várias reações e de minha parte também. A gente vê as pessoas muito complexadas, se o palhaço chega, a pessoa olha assim, tem muito a coisa da timidez, né? Porque timidez é o ego de ponta-cabeça… então comecei a cutucar, por que as pessoas não conversam como antigamente? Será que é a crise? A violência? Eu descobri que é o preconceito. Muita gente pensa que o palhaço aqui é um desempregado, desesperado que pintou a cara e foi pra rua pedir dinheiro, e assim a gente vai pensando do vizinho, da pessoa ao lado no ônibus, mas a gente só vai saber quem é a pessoa de verdade, comunicando com ela. Porque o resto é só imaginação. As pessoas perdem a oportunidade de amizade, de trabalho, até de casamento por causa do preconceito. E acho que o que faz as pessoas alimentarem esse preconceito são os nossos meios de comunicação, eles enchem a cabeça das pessoas com tanta notícia sensacionalista, que a pessoa sai de casa cheia de informações achando que está segura, mas ao contrário, ela tá distraída, ela tá cheia de medo, e isso é prato cheio pra o ladrão. A verdadeira informação tá na gente, como tá nossa cabeça, como está nosso corpo, depois disso é que a gente vê com clareza as coisas.

O trabalho no ônibus eu fiz por muito tempo, e foi bom, eu via muito as pessoas comentando, começam a olhar um pra o outro, quebra um pouco esse gelo nas relações. Depois de um certo tempo, eu fiz trabalho em Universidades, em Centros Culturais, mas eu costumo dizer que meu trabalho não é só como palhaço, embora o palhaço seja o mais difícil,

 

“Porque palhaço não é bem ator, é a coisa do improviso, tem que estar atento, tem que estar vazio, ele não pode pensar em tirar o sorriso da pessoa, se ele pensar ele tá buscando resultado, e se ele busca resultado ele não vê o que tá acontecendo no momento, tem que ter sacações…”

 

Amoroso: e esse trabalho que eu comecei a fazer nas sinaleiras é fantástico, as pessoas ficam presas ao tempo, e o lugar onde acontece bem isso é no semáforo, o sinal marca o tempo, a pessoa tem que resolver coisas, tem que alcançar objetivos, a pessoa quer ganhar tempo, ganhar mais tempo pra ter tempo pra viver. Então fica nessa correria o tempo todo, mas o tempo não se ganha. Nas sinaleiras eu percebi que as pessoas estão sempre ansiosas, elas não vêem, não enxergam ninguém, já têm resposta pronta, você chega perto do carro ela já tá dizendo “não, não, não”, mas “não” o que? Entende? Eu percebo o grau de estresse das pessoas, eu vou lá e quebro um pouco isso, porque eu vou com um balde, a pessoa pensa que é água e já leva aquele susto… depois é que vem um sorriso.

Olha só, essa coisa de quando que me tornei palhaço sempre me perguntam, desde pequeno que eu sou palhaço, eu sempre interagi, na sala de aula eu imitava o Mazaroppi. Quando a pessoa é muito condicionada pela educação, por fórmulas, padrões, ela fica fechada, se torna séria, e essa seriedade não é a verdadeira seriedade. Seriedade é quem tá vendo a realidade.

 

“A pessoa que passa na rua com uma pasta, ou uma Bíblia debaixo do braço, ela parece uma pessoa séria, mas não é, ela está fechada, presa num objetivo, e a pessoa assim dificilmente brinca, dificilmente está relaxada, está sempre tensa, procurando alcançar objetivos.”

 

Amoroso: A coisa do palhaço vem do vazio, a cabeça tem que estar vazia, não que o palhaço seja um estúpido, pelo contrário, o estúpido está sempre com a cabeça cheia de coisas, mas um estado de vazio é um estado sem tagarelar muito, sem objetivos, interesses… em toda família tem sempre uma pessoa que quebra o gelo, é o chamado palhaço da família.

Então, o palhaço é o estado de inocência, de vazio, sem informações, sem preconceitos, né? Eu ainda pequeno já tinha esse talento, a educação faz o contrário, destrói o talento, cria fórmulas. O que faz a gente se tornar palhaço é interagir com as pessoas, o fato de estar vestido assim já tira a gente dos padrões, chama a atenção, as pessoas reagem, e isso a gente percebe. A coisa do palhaço é bem parecida com a criança, quando chega numa casa cheia de adultos, ela quebra todas as convenções, o avô que tá fechado, cheio de doenças, já abre um sorriso, a criança não tá ali pra dar idéias, nada, ela tá descobrindo, e isso encanta as pessoas. O palhaço é bem isso aí.

“Nunca tive contato com circo, sempre me perguntam em que circo trabalhei. Essa coisa da tradição mata a criatividade, a técnica…”

 

Amoroso: eu nunca fiz nenhum curso pra ser palhaço, eu sou autodidata, pinto, me maqueio sozinho, faço artes plásticas, toco percussão… é na rua, com as pessoas, que vou descobrindo, vou aprendendo, eu não vou pra rua sabendo o que vou fazer, lá é que aprendo, vendo as pessoas fechadas, quase mortas.

Em São Paulo, eu trabalhei com auxiliar de escritório, vendedor, no Rio fiquei sete anos, fui empresário, viajei pra Índia várias vezes pra comprar produtos, mas essa coisa de empresário, me sufocava, me cansava, então me decepcionei com essa vida de escravidão, larguei tudo e decidi vir pro Nordeste, pra um lugar eu tivesse praia, pra respirar e viver só de arte. Já estou aqui há oito anos e vivo disso, faço trabalho nas ruas, faço animações em festas, aniversários, shoppings, mas só não faço propaganda, não fico vinculado a nenhum tipo de produto, de marca, nossa cultura é muito propagandista, prefiro minha liberdade, e nem com políticos faço trabalho. Acho uma palhaçada!

Olha o despertar pra essa coisa de palhaço aconteceu lá no Rio ainda, eu era empresário, na época tinha acontecido o Plano Collor, eu levei um rombo, fiquei sem aquela estrutura financeira que eu buscava, foi nessa que tomei um baque, comecei a ver que eu tava cobrando de mim um status, foi aí que perdi tudo, e isso foi maravilhoso porque, já aqui, comecei a ir pra praia, comecei a me sentir livre, a questionar as relações familiares, as relações religiosas, eu comecei a me livrar de tudo mesmo, eu era filho do medo.

Eu fui monge hare-krhisna, ainda em São Paulo isso, entrei no Templo com 18, me livrei aos 42. Eu to com 51 anos hoje. Quando eu me livrei dos condicionamentos da religião, dos dogmas, quando enfim dei o passo pra o abismo, quando me livrei disso tudo, passei a enxergar com meus próprios olhos, porque até então eu enxergava com os olhos do guru, da minha família, do meu pai, passei a ser sensível a ponto de não aceitar a própria autoridade que vinha de mim mesmo, até porque essa é a pior autoridade que existe, me livrei disso, da mais difícil, porque a gente cresce e tem que ser isso ou aquilo, né?

 

“Já começa assim: “você vai ser o que quando crescer?”, quer dizer, a criança já entra nessa de competir, a educação é o que mata a criatividade da criança, porque nossa educação é baseada na punição, no castigo, na recompensa, a criança já cresce com medo, com medo do que vai ser, do que não vai ser, nossa educação liquida nossa sensibilidade, essa coisa da sensibilidade é quando você vê com seus próprios olhos, só se pode ser sensível se não temos medo.”

Amoroso: Com 16, 17 anos eu tinha muitos conflitos, relações com drogas, bebidas, e com isso a cobrança da sociedade, minha formação é católica, por causa da família, tinha aquele Deus do medo, né? E no movimento Hare-Krhisna o que me despertou foi o fato de ver pessoas diferentes, roupas e costumes fora dos padrões daqui, né? Eu era auxiliar de escritório, já tava virando empresário, tudo muito repetitivo pra mim, aquelas roupas, aquelas pessoas cantando nas ruas, uma cultura diferente, incensos, vegetarianismo, grande literatura, histórias fantásticas, tudo isso me deslumbrou, mas era também uma fase de conflitos, entende? Havia ali também uma vontade de conhecer a vida, né? Saber porque que a gente morre, e eles têm a resposta pra tudo, né? (risos) E por muito tempo eu dormir com essas respostas, porque era como uma droga, eu substitui as que eu usava por outra, porque a pior droga mesmo é a idéia, a droga em si não é tanto problema, o problema é a idéia. Só que a partir de um momento eu comecei a excluir um monte de gente em minha vida, minha família, porque não eram vegetarianos, logo, eles iriam pro inferno, eu iria pro céu, alguns amigos.

E quando eu estive na Índia, eu já tava meio fora dessa onda toda, e lá foi que eu vi a coisa de perto, lá todo lugar é sagrado, tudo é sagrado, eu estive lá quatro vezes, eu passava um mês, comprava coisas lá, e voltava. Eu tava de comerciante, comprava coisas e pedia ajuda pra Deus pra passar na Alfândega (risos).

Eu comecei a questionar todos os mestres, comecei a cutucar, eu tinha uma peça chamada Kali, que falava dos pecados capitais, mas era um tanto ortodoxa, acabava sempr cantando Hare Krishna. Daí eu mudei um pouco, botei música budista no meio, comecei a chamar Deus de Jeová, e isso começou a incomodar as pessoas do Templo.

 

“Eu cheguei a perguntar pra um guru que já que Deus é um só e absoluto eu poderia chamá-lo de Jeová e não só de Krishna, mas aí ele me disse que o nome Krishna tem uma porcentagem a mais, uma medida maior do que os outros (risos soltos).

 

Porque meditação não é uma coisa separada da vida, você comendo você medita, fazendo sexo você medita, trabalhando você tá meditando, meditação é estar atemporal, não é dispensar a memória, a memória é importante, mas quando a pessoa dá atenção demasiada à memória ela se torna rei, e por causa da memória começam de novo os objetivos, as metas, e a pessoa sente prazer em projetar um estado de realização, seja espiritual, seja material. Por que, no fundo, o que é o pensamento? Aí, você vai procurar na memória, pode ter resposta acadêmica, uma resposta solta, mas esse tempo que te fez procurar a resposta isso já é o pensamento. Então as pessoas perderam a sensibilidade porque a memória é que tira de nós a percepção total das coisas.

Deus é o agora, Deus é você, Deus é uma coisa viva, não é idéia, é o tudo agora, você me entrevistando, eu falando, o rádio tocando, o barulho lá de fora, a brisa entrando aqui, isso é Deus. E nada daquelas verdades absolutas me abala mais, porque o medo existe e tá sempre relacionado a algo, a gente tem medo de alguma doença, medo da mulher abandonar, medo de perder o filho. O medo, de fato, não existe no presente ativo, ele só existe quando você pensa. Você projeta algo que pode acontecer, por isso o auto-conhecimento é um negócio fabuloso porque a gente começa a se conhecer a cada momento, se percebe o tempo todo, porque tudo é ilusório, tudo é fictício. E fora o medo maior que é o da morte mesmo, que é um fato, né? Mas o meu medo mesmo é o medo da morte psicológica, que é tudo o que a gente acumula desde pequeno na vida, o nome, as referências, as crenças, a família, todas essas informações,

 

“Porque a morte é o desconhecido, a gente não sabe o que vem depois, o medo, na verdade, é da perda do conhecimento, porque o desconhecido a gente já desconhece, o problema é perder o que já se conhece. Porque o pensamento é bom, mas pode ser também o teu pior inimigo.”

 

 É justamente quando a gente quer a segurança na vida, e o que é a segurança? É ter a certeza de que não aconteça uma determinada coisa no futuro, é se assegurar de que não vai acontecer algo inesperado, a segurança é a maior desgraça da humanidade, as pessoas acumulam fortunas, outras tantas passam fome por isso, a própria relação amorosa vira mesmo um esquema pra você não perder a pessoa, pra se sentir segura, quase nunca tem a espontaneidade, há sempre a coisa de um testar o outro, sempre o medo de perder, deixa de ser uma coisa natural e vira um jogo de estratégia a relação. A vida não tem método, não tem fórmula, você que tem que se perceber.

O lance é o seguinte: a tradição mata a cultura, a criatividade. Veja aí, a coisa do Natal, Festa Junina, é sempre tudo igual, repetição, nada de novo, coisa horrível, eu me considero uma pessoa criativa, eu vou lá e faço, sabe como é? E referências a gente tem sempre que estar mudando, eu já assisti muita televisão, já faz quase dez anos que não assisto, depois que parei de ver TV, eu me tornei mais criativo. Porque a televisão faz a gente ficar se comparando, e o que é pior, faz a gente imitar. Então, meu trabalho, esse da sinaleira, foi um insight que eu tive.

A mudança começa na gente, a maior escola que existe é a relação que você tem com as pessoas, tua família, teu patrão, tua empregada, teu filho, nisso a gente descobre nossa arrogância, nosso autoritarismo,

 

“ Por que a gente é arrogante com nosso filho? Pra que ele fique sempre dependente, cheio de medo, medo de errar, então, eu vejo que nas relações em geral, a gente começa a se perceber, no dia a dia, não existe mudança via ideologia, religião, nada disso, a mudança que há é o agora, porque, repare, a gente espera que o mundo todo mude pra gente mudar. Depois que deixar de existir político ambicioso, eu deixo de ser ambicioso, mas, no fundo, você tá querendo o lugar dele.”

O nome Amoroso quem colocou foi um cara de lá do Templo, chamado Lúcio, um maluco, astrólogo, um dia eu tava lá vestindo uma roupa de palhaço e disse a ele que precisava ter um nome de palhaço, ele foi lá e disse: “Amoroso”. Eu achei legal esse nome. Veja só, eu fui iniciado com nome de palhaço por um maluco (risos).

QUER CONHECER O BLOG DO CAZZO ENTRE: http://cazzoentrevista.blogspot.com

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. online
    mar 13, 2010 @ 13:35:32

    Obrigado por intiresnuyu iformatsiyu

    Responder

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